Protesto foi motivado por demolições em área de risco; pista ficou interditada por 4 horas
Helton Romano
Dois veículos foram incendiados durante uma manifestação ocorrida, na tarde de ontem, no Km 176 da Rodovia Rio-Santos, trecho do bairro de Juquehy, na Costa Sul de São Sebastião. O protesto foi motivado pelo início de 16 demolições que estão programadas no Morro do Esquimó.
Pouco antes das 14h, um grupo de moradores bloqueou a rodovia com entulho e ateou fogo no material. Um ônibus de transporte coletivo, que fazia linha Boiçucanga/Boraceia, também foi alvo dos manifestantes. “Eu estava dando ré para retornar quando o ônibus foi cercado”, conta o motorista Renildo Silva Santos.
Quatro homens invadiram o veículo e obrigaram o motorista a deixá-lo atravessado na pista. Logo após a saída dos 15 passageiros, o ônibus foi incendiado. Uma viatura do Corpo de Bombeiros chegou ao local uma hora depois.
Enquanto o ônibus era consumido pelas chamas, os manifestantes atiravam mais entulho e formavam outra barricada. Policiais rodoviários apenas observavam, à distância.
O clima ficou tenso quando a viatura dos bombeiros tentou chegar à barricada para apagar o fogo. Os manifestantes impediram a aproximação do veículo e os policiais tiveram que intervir. Pedras chegaram a ser arremessadas contra os policiais; um deles revidou com spray de pimenta.
Por volta das 16h, o policiamento foi reforçado. Manifestantes dispostos a resistir se armaram com pedras e paus. Alguns deles portavam coquetéis molotov. Do outro lado, policiais seguravam bombas de efeito moral e espingardas com balas de borracha.
Quando o confronto era iminente, um dos líderes da manifestação resolveu iniciar diálogo com o comandante do policiamento. Mas enquanto transcorria a negociação, um caminhão de refrigerantes foi incendiado a 900 metros do local.
Às 16h35, os manifestantes aceitaram liberar a rodovia. De acordo com o tenente da Polícia Militar, Eduardo Gonsales, que conversou por telefone com o secretário municipal de Segurança, Múcio de Alvarenga, uma reunião entre moradores e Prefeitura foi agendada para sexta-feira, em Boiçucanga. Até lá ficam suspensas as demolições.
Com o acordo selado, as máquinas removeram o entulho da pista, que teve o tráfego liberado às 18h. Durante as quatro horas em que a rodovia esteve interditada o tráfego foi desviado para o interior dos bairros de Juquehy e Barra do Una, onde o motorista podia utilizar a antiga e esburacada estrada que liga ambas as praias, contornando o trecho bloqueado.
Prefeitura inicia demolições em morro após determinação do MP
As demolições programadas no Morro do Esquimó foram iniciadas na segunda-feira, com a derrubada de uma casa. Na manhã de ontem, mais uma construção veio abaixo. “Disseram que tinha ordem judicial para demolir”, contou o carpinteiro José de Jesus Santos, 33 anos, desolado em meio ao entulho. Segundo apurou a reportagem, no local funcionava um bar e havia ainda um forno de assar pizzas, que eram vendidas à comunidade. “Ajudava a complementar a renda. Pedi para deixar o forno, mas não aceitaram”, afirma o carpinteiro.
Um barraco ao lado pode ser o próximo. “Mandaram tirar as coisas que vão voltar para demolir”, declarou Daislane do Nascimento, 18 anos, que diz estar grávida. A reportagem entrou no barraco, construído à base de madeirite, e observou diversas rachaduras. “Está caindo aos pedaços, mas não tenho condições de ir para uma casa melhor”, alegou Daislane, que alugou o barraco há menos de um mês por R$ 250.
Outra moradora que diz estar sob aviso de demolição promete resistir. “Daqui não saio. Fico sentada no sofá e, se quiserem, me matam”, declarou a doméstica Leci Maria da Silva, 53 anos.
Em nota oficial, a Prefeitura ressalta que as 16 demolições, previstas no Morro do Esquimó, “foram determinadas pelo Ministério Público, por estarem em área de risco”. Segundo o comunicado, “os imóveis não estavam habitados”.
A Prefeitura reforça que cerca de 50 famílias do Esquimó estão cadastradas e serão transferidas para um conjunto habitacional na Enseada, Costa Norte da cidade. Conforme o comunicado, as moradias estão em fase de acabamento e a transferência deve ocorrer na segunda quinzena de fevereiro. “As casas com auto de demolição nada tem a ver com estas 50 famílias que já estão sendo atendidas”, diz a nota.
Por fim, a Prefeitura atribui a um servidor público o ato de “incitar os moradores” e promete analisar medidas administrativas de punição, além de ter registrado um boletim de ocorrência quanto a sua conduta. (H.R.)
Foto: Jorge Mesquita/IL
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